Marcelina sepultou dois maridos em menos de cinco anos

Não sendo inédita, a história de Marcelina Thereza de Jesus Mandim é no mínimo interessante e merece ser contada. Natural de Rio Mau, Marcelina veio viver para a Junqueira quando se casou, a 1 de Agosto de 1887, com um homem 14 anos mais velho chamado Manuel Gonçalves Ferreira. Ambos lavradores, o casal foi morar para o lugar de Barros, onde a família de Manuel se havia instalado há muitos anos vinda de Arcos.

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Tiveram pelo menos uma filha, a quem deram o nome de Maria, nascida a 30 de Julho de 1890. Ao contrário de Maria, que viveria até aos 88 anos, Manuel Gonçalves Ferreira viria a falecer aos 53 anos, fustigado por uma doença mas confortado com os sacramentos solenes da Igreja. Estávamos a 15 de Junho de 1896.

É difícil perceber o que passaria pela cabeça desta mulher que, ainda antes de fazer 40 anos, se encontrava viúva e com filhos para criar. O que se sabe é que menos de um ano após a morte de Manuel, Marcelina subia novamente ao altar para se casar com João Joaquim Azevedo. Também ele lavrador e morador em Barros, João era dez anos mais novo que Marcelina.

O casal teve apenas uma filha, Laurinda, nascida a 28 de Fevereiro de 1899. Tal como a meia-irmã Maria, Laurinda teria uma vida longa, e ambas ficariam viúvas durante mais de 20 anos. João é que não teve tanta sorte já que viria a falecer repentinamente aos 33 anos, levando a pobre Marcelina ao cemitério da Junqueira pela segunda vez em menos de cinco anos.

Thereza bem tentou…

cropped-sipaimage-61.jpgQuando é que a persistência se torna em obsessão? Quantas vezes se pode racionalmente tentar atingir um objectivo antes de desistir? A mulher desta história viveu na Junqueira entre os séculos XIX e XX. Thereza Ferreira nasceu em 1869, casou vinte anos depois com Joaquim Fernandes do Monte, natural de Rio Mau. As três décadas que se conhecem da sua vida contêm elementos suficiente para alimentar um texto mais longo que aquele que publicamos agora.

Lavradora tal como os pais, Thereza manteve-se em Barros após o casamento. Joaquim tinha 22 anos, era também trabalhador da terra, e viria a falecer nove anos depois, a 15 de Agosto de 1898. Durante este período, o casal teve seis filhos, dos quais dois não sobreviveram. Dos seis, apenas o primeiro foi um rapaz. Chamava-se Manuel e nasceu a 5 de Outubro de 1891. O resto da prole chegaria nos anos seguintes: Emília, em 22 de Fevereiro de 1893; Olívia, a 17 de Janeiro de 1894; Rosa, a 19 de Agosto de 1895.

A bebé seguinte foi baptizada de Deolinda. Nasceu a 24 de Outubro de 1896 mas viveria apenas dez meses. Thereza estava, por esta altura, grávida. Quando o bebé “número seis” nasceu, a 13 de Janeiro de 1898, o casal insistiu em que se chamasse Deolinda. Mas a criança também viria a falecer, seis meses depois. E em Agosto, Joaquim deixava Thereza sozinha no mundo com quatro filhos para criar.

Quase dois anos depois, em Junho de 1900, a viúva Thereza volta a engravidar, pai desconhecido para o Estado Português. Seria esta a Deolinda que por quem tanto ansiava? Infelizmente, se a primeira tinha aguentado dez meses e a segunda seis, a mais recente Deolinda não chegou sequer a completar o primeiro mês.

Quantas vezes se pode racionalmente tentar atingir um objectivo antes de desistir? No caso desta mulher, a resposta é… três. Quando voltou a dar à luz, a 10 de Março de 1902, Anna foi o nome escolhido e, tanto quanto é possível dizer, não consta que Thereza tenha regressado ao cemitério nos meses seguintes…

| A terminar 

(Cândido Fernandes Silva, que emigrou para o Brasil em 1958, é filho de Rosa Fernandes Ferreira e, portanto, neto de Thereza Ferreira e Joaquim Fernandes do Monte. Rosa viveu até bem perto dos 100 anos).

Publicado originalmente no Junqueira Antiga a 8 de Dezembro de 2015.