(Republicação) Cesarina Lyra: as visitas à Junqueira de uma soprano que a Grande Guerra calou

CesarinaLyra

Do tempo em que as casas eram senhoriais e os salões se enchiam de gente ilustre sobram sempre muitas histórias para contar. A Quinta da Boavista, em Casal Pedro, era um desses sítios imponentes, local por onde passaram pessoas que permaneceram muito para além das suas vidas. Cesarina Lyra, nascida em 1883 e que nos anos 1930 era uma das presenças frequentes naquela Quinta. Cesarina tinha uma filha com o mesmo nome, que exercia a profissão de médica pediatra no Porto, e que acompanhava a mãe nas visitas que esta fazia amiúde à Junqueira.

Mas a vida de Cesarina Lyra como soprano é uma daquelas histórias que certamente daria uma interessante biografia. Com o centro da Europa prestes a entrar em ebulição, Cesarina tinha um sonho: partir para Itália para continuar os estudos de canto. As reacções entusiásticas que as suas actuações no São Carlos e no Coliseu de Lisboa iam merecendo por parte da crítica especializada da época só lhe poderiam augurar um futuro brilhante. Com pouco mais de 30 anos, Lyra tinha já no seu currículo a Aida e Trovador, de Verdi, e a Tosca, de Puccini.  Na revista “Ilustração Portuguesa”, datada de 22 de Abril de 1912, Cesarina Lira aparece em destaque num trabalho dedicado a cantoras amadoras, discípulas de Eugénia Mantelli. O trabalho pode ser descarregado aqui, através do site da Hemeroteca de Lisboa. E a 30 de Maio de 1912, a revista lisboeta “Occidente” dava como certa a sua partida para Itália, ao ponto de António Santos, empresário do Coliseu dos Recreios, ter patrocinado uma espécie de “último” espectáculo de Cesarina, para que o público português pudesse escutar a voz da soprano, “uma cantora portuguesa que se apresenta sob tão belos auspícios”.

Porém, a chegada da Grande Guerra calou-lhe a ambição. Conta o autor deste blogue que em 1913 Cesarina integrava a temporada de ópera italiana do Coliseu, “facto notável atendendo à pouca experiência da cantora, mas justificado pela sua qualidade”. E em 1914 cantava no “Sá da Bandeira”, no Porto, Os Palhaços, e no ano seguinte, em Lisboa, no Éden Teatro, novamente a Aida. Como a Guerra haveria de durar cinco anos, o sonho de se radicar em Itália foi-se desvanecendo e a carreira de soprano ficaria irremediavelmente para trás.

Das visitas à Junqueira, que seriam frequentes, só nos chegou a notícia de 1938. Cesarina Lyra viria a falecer em 1964, aos 81 anos.

Publicado originalmente no Junqueira Antiga a 28 de Agosto de 2013.

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