Ricardo Severo (F)

Ricardo_SeveroDados biográficos:

  • filho de José António da Fonseca e Costa e de Mariana da Cruz Fonseca e Costa
  • proprietário da Quinta da Boavista, em Casal Pedro
  • casou com Francisca Santos Dumont
  • teve oito filhos
  • emigrante no Brasil
  • nasceu em Lisboa em 1869
  • faleceu em São Paulo, em 1940

Notícias completas:

13 DE ABRIL DE 1940 Ricardo Severo, que há dias se finou em S. Paulo, Brasil, foi um grande português que com fervor religioso estudou as origens da sua terra, amorosamente lhe quis e através da sua longa e afanosa vida sempre procurou servi-la, pela sua preclara inteligência, o seu nobre carácter, a sua vasta cultura, a sua fé sempre renascente, a sua incansável e fecunda actividade.

No Brasil o seu nome aureolou-se dum extraordinário prestígio, brasileiros e portugueses se irmanando no respeito e na admiração que lhe tributavam. E bem merecia a sua vida e a sua obra, que os anos não desluziram, esse respeito e essa admiração de que mais uma vez teve em manifestações calorosas, de expressiva unanimidade, o alto e consagrador testemunho.

Ricardo Severo era um cientista dos mais notáveis e um técnico dos mais competentes.

Deixa em vários trabalhos assinalados o muito que sabia dos assuntos que para o seu estudo preferia, e bem como sabia dizer do muito que aprendera e descobrira. E S. Paulo, onde principalmente e no transcurso de largos anos, a sua preciosa actividade se exerceu, afirma, nas transformações notáveis por que passou, sobre a sua direcção e impulso, a sua altíssima competência de trabalhador consciente e corajoso.

Ricardo Severo podia ter orgulho da sua vida e do respeito afectuoso de que soube cercá-la.

Homem de princípios sempre aos seus princípios permaneceu fiel. Mas era tal a elevação com que os mantinha, tão clara a sinceridade com que os guardava que os adversários desses princípios nem por isso deixavam de ser seus amigos e seus admiradores, sendo dos primeiros nas homenagens e aplausos que à sua obra se prestavam.

O fundador e orientador da Portugalia, o director da Revista de Ciências Naturais e Sociais, o autor proficiente e sempre brilhante de tantos estudos sobre coisas portuguesas, o cidadão exemplar e o trabalhador sem férias que tão alto, e só pelo seu esforço, soube impor-se, bem merecia, repetimos, que assim lhe quisessem e assim o festejassem.

Era um grande português, que nunca se esqueceu de que o era, e que em sê-lo com todas as límpidas virtudes da sua raça sempre timbrou. Justificado é assim o sentimento profundo que a sua morte causou em Portugal e Brasil, sentimento que bem se mostrou na homenagem unânime que a imprensa dos dois países rendeu à sua memória.

É que são cada vez mais raros os homens da sua estatura mental e moral, são cada vez mais raras as lições de educadora nobreza como as que na sua vida se compendiavam.

Renovação sente a morte do grande português, e envia a toda a sua ilustre família a expressão das suas condolências muito sinceras.

Ricardo Severo, quando veio a Portugal em 1935, residiu na sua casa de Casal de Pedro, Junqueira, deste concelho, onde tinha sua veneranda Mãe, há pouco também falecida. Ali foram cumprimentá-lo representantes da nossa Câmara, deferência que a Ricardo Severo muito penhorou.

8 DE MARÇO DE 47 (Junqueira, 24 de Fevereiro) No lugar de Casal Pedro, desta freguesia, foi localizada uma casa cujos moradores passam a noite a roubar pinheiros. Foi lá encontrado um pinheiro bastante grosso, pertencente à Quinta da Boa Vista, propriedade dos herdeiros do saudoso engenheiro dr. Ricardo Severo.

15 DE NOVEMBRO DE 1969 Ricardo Severo Celebra-se em S. Paulo, a grande metrópole do País Irmão, o Centenário do Nascimento do grande português Ricardo Severo. Natural da cidade do Porto, Ricardo Severo foi um engenheiro distintíssimo e um arquitecto extraordinário; foi, nos quarenta anos que viveu em S. Paulo, o criador da urbanização paulista. Foi o bandeirante do século XX. Após os acontecimentos de 1892, Ricardo Severo partiu para o Brasil, onde se conservou até 1898. De regresso à Pátria, funda com Rocha Peixoto, a “Portugália”, revista de arqueologia e etnografia, onde se recolheram “Materiais para o estudo do povo português. Pela grey”. Devia durar dez anos a “Portugália”, onde colaboraram Martins Sarmento, Adolfo Coelho, Fonseca Cardoso, Alberto Sampaio e muitos outros ardorosos trabalhadores das ciências e letras. Proprietário da “Quinta da Bela Vista”, em Casal do Pedro, na nossa freguesia de S. Simão da Junqueira, Ricardo Severo foi, em terras vilacondenses, um incansável trabalhador. Com Martins Sarmento, desventra a Cividade de Bagunte, percorre “castros” e “mamôas” junto ao Ave. Com Fonseca Cardoso, revolve a necrópole de Fornelo. É lá que encontra, entre caveiras e tíbias, a estátua de Júpiter, a que depois chamará, amorosamente, a sua “mascote”. Malheiro Dias dá-nos uma visão desse homem extraordinário, ao descrevê-lo à frente das turmas de cadáveres, nas serranias beironas, minhotas, transmontanas ou durienses, desenterrando do cemitério dos séculos o arcaico Portugal da pré-história”, que depois transportava para a sua casa na rua da Cedofeita. Eram os “penedos dos dólmenes, os crânios e as tíbias dos ossários, e das necrópoles, os humildes vasos de argila, os parapeitos dos “castros”, as denegridas pedras dos lares imemoriais, para transformar esse material, aparentemente morto, em motivos de vida e justificação da sobrevivência nacional”. Foi, com “esses vestígios dispersos, esses restos truncados, essa escória, esses fragmentos, essa poeira”, que Ricardo Severo compôs o “painel da nossa vida antiga”. Ricardo Severo foi o homem que “afastando, dissipando as trevas espessas que ocultavam o proscénio da História de Portugal, revelava o incógnito das eras desaparecidas, ante a estupefacção geral, mostrando que já antes do alfabeto egípcio existia o alfabeto ibérico”. Republicano, o regicídio e os factos que se seguiram, magoaram-no profundamente. Depois, a publicação da “Portugália” fazia-se com imensas dificuldades e o maravilhoso grupo que a servira, dispersava-se. Foi então que Ricardo Severo partiu para o Brasil, de onde só havia de voltar em 1935, a visitar a sua veneranda Mãe, que residia na “Quinta da Bela Vista”, na Junqueira. A Câmara Municipal de Vila do Conde rendeu-lhe, então, homenagem, indo a Casal de Pedro cumprimentar o ilustre antropologista e escritor. Verdadeiro português, Ricardo Severo foi no Brasil o maior embaixador de Portugal. Ao longo dos trinta e dois anos – tanto durou a sua última estadia no País Irmão – e até à sua morte, em 1940, Ricardo Severo, em admiráveis conferências e outros trabalhos, deu a conhecer aos brasileiros as origens da Raça, a feição democrática de Portugal desde os nossos primeiros Reis e o quanto teve de original a nossa expansão no mundo que descobrimos, povoamos e colonizamos. Foi assim, em rápidos traços, a vida do engenheiro Ricardo Severo, um dos fundadores da “Portugália” e Director da “Revista de Ciências Naturais e Sociais”. Ao recordar aos leitores de “Renovação”, o homem que viveu em terra de Vila do Conde e nela trabalhou para dar aos vindouros ciência dos primeiros milénios da história da Ibéria, apenas cumprimos um dever.

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